quarta-feira, 14 de março de 2012

Menina


Na mesa de seus pensamentos dormitava o poeta,
quando despertado foi pelo assobio da menina
movimentando-se para sair de uma poça d'água.

Quão pouca água há nesse buraco! Por si mesma sairia sem demora!
    Ele isso apenas pensou, pois inexplicavelmente já estava ao seu lado.

E a poça era como redemoinho
querendo aos poucos tragá-la para o fundo.
De cima a menina via no limbo
macieiras rebentando em frutos
Indizível possibilidade,
mas ilusão!

Ora, menina!
ao seu redor há macieiras, pereiras e pessegueiros,
há incontáveis sonhos com sabor
de pão de mel, sorvete de pistache, chiclé de canela.

Podemos dançar a sinfonia dos pássaros
até que saia do limbo.

e quando o fizer,
podemos correr pela aurora
de início trôpegos, sim!
Mas não de todo vacilantes...

E visitar palácios e luas
respirar o aroma silvestre
num céu todo cor de abóbora.
  

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lembranças e incertezas


É sempre no alvorecer do dia
debruçado sob a grade da janela
que me recordo das grandes venezianas de cerejeira.
ouvir as lenhas crepitando na lareira
o chiado avisante da chaleira
ruivas crianças começando a gritadela.

Quem dera Deus me concedesse voltar no tempo
e dançar mais uma vez na neve
e correr mais uma vez na catedral de Saint David
e o pôr-do-sol mais uma vez no rio Wey
e me fartar de feijões doces.

Enquanto isso engano a mim.
Fico a esperar que os ventos me levem
enquanto os ventos esperam que eu me leve
Vinícius me diria então: 
Quanta tristeza há nesta vida! 
Só incerteza, só despedida.

Ah, Vinícius!
há tantos "olás" quanto "adeus"
há tantas chegadas quanto partidas
Sim!
a flecha lançada jamais retorna.
a palavra pronunciada jamais se repete.

mas haverão mais flechas
e muito mais palavras....

por isso não me turbo o coração
a flecha atingirá o marco
e a palavra atingirá o ouvido
e eu, agora no crepúsculo do dia
debruçado sobre a janela, contemplarei
as flores roxas, a neve fina, o amor no sorriso.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Oásis de toda vida


Família:

o pai grita truco,
o tio é seis,
o pai é nove,
o tio é queda.

a vó gargalha sem dente
a menina derruba a farofa no chão
a madrinha ri alto, feliz pelo vinho.
O tio cochilando na oração...

a vó começa a canção,
a tia embala em seguida
os meninos e o violão 
e o batuque de mãos e mesas
dão o tom da festa:
desafinado coro dos contentes.

se abraçam e choram 
vendo as lembranças de quem já foi
mas confortados, logo riem 
por aqueles que aqui estão
e aqueles que estão por vir...

família,
oásis de toda vida.
     
     

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ismália

É meu preferido. Alguns questionam-me por que cargas d'água tenho por preferido um texto tão melancólico - talvez até macabro. "Ismália" é tão belo quanto tenso. O vídeo abaixo traz uma versão musical  que traz um ar meio dançante à atmosfera do poema:


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar

domingo, 2 de outubro de 2011

tipo 3


Vaidade.

Tudo seu é bom
Tudo seu é certo
és belo, és forte,
impávido colosso

vai e fala
pega e faz
sem rodeios nem devaneios:

Os fins justificam os meios!
Se os ventos mudaram, ajuste as velas!

melhor fugir que aguentar
lá eu serei reconhecido
serei mais eu.

eu
eu
eu
eu
eu

És pau ou és pedra?
Ora és um
ora outro
do jeito que te apraz.

Pense!
tem mais gente pra viver
tem gente querendo viver com você
Veja!
Dedica-te mais pra outro
e verás a beleza
e a paz
de ser um todo
mais um no todo.

Vaidade, não.
Vai dar-te.